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Certo Índio da aldeia de Guaraíra, em momento de retorno sentimental à vida
selvagem, esquecido das lições que recebia, matou uma criança. Matou e comeu.
O povo e os parentes da pequena vítima, reagiram
veementemente.
Não preocupava àquela altura, se prejudicaria o trabalho paciente mas
superficial dos padres da Companhia Jesuítica.
Intencionava imolar a tradição cultural da antropofagia, que irrompera,
inusitadamente ameaçando a cultura branca, européia.
O Superior da missão não pode se omitir na circunstância, mas não
podia usar de violência, segundo a norma invariavelmente adotada nos métodos
da catequese dos discípulos de Santo Inácio.
Tinha porém que impor o castigo exigido. E
mandou que o índio farto das carnes da criança, ficasse dentro d'água, até
que fosse chamado.
Assim sendo, o índio ficou lá, mas quando procurado não foi
encontrado. Foi quando começou a aparecer nas águas da lagoa um
Peixe-boi indo e vindo de um lado para o outro. Alta noite, o que se ouvia,
subindo das águas salgadas da lagoa, era o gemido pavoroso de tremer,
horripilante, dolorido, inesquecível.
A tremenda expiação devia perdurar por muitos anos, segundo sentença do
missionário. Os pescadores iam pescar e voltavam, a rede enxuta sem peixe nenhum.
Antes de dar o primeiro lanço, o Peixe-boi aparecia varejando a canoa com toda
a velocidade possível.
De lá de baixo subia o gemido cortante,
agoniado e rouco, como se alguém estivesse afogando.
Era o índio que devorara a criança.
Os gemidos eram mais feios, mais lancinantes, pungentes, mais magoados nas
noites de luar. E
quando a mareta se erguia, via-se ao reflexo da lua, o dorso do Peixe-boi que
subia à superfície.
O Pior era a incerteza. O Peixe-boi em toda a parte. Certa noite, era lá no canto do Borquei.
Outra, no córrego da Capivaras, e sobretudo, na Barra do Tibau, vinham aos
ouvidos os urros tremendamente feios, medonhos, apavorantes!!!!
Singular destino dessa lagoa.
Quando menos se espera, o mar a devolve. Depois retoma.
Tudo é um precioso mistério.
Em Tibau do Sul-RN na Lagoa das Guaraíras.
Crônicas por "Hélio Galvão" (Derradeiras Cartas da Praia)
Gravuras de "Hans Standem, Viagens ao Brasil"(Marburgo,1556)
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